28 abril, 2006

O teste


Leia o texto abaixo: (estas coisas só acontecem comigo!)

Enviei o e-mail abaixo para uma produtora de vídeo que fica perto do meu serviço, na esperança de ganhar uma camisa:

Enviei o primeiro e-mail com a figura de uma 'cara de cão' abaixo:





Bom dia,

Há alguns dias vejo algumas camisetas com as frases:

"In Dog We Trust" ou "Oh my Dog!"

Gostaria de adquirir uma das camisetas de vocês, caso esteja à venda. Obrigado.

P.S.

O Meu número é "Grande" ou número 3 em camisas de pano.

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Recebi este e-mail deles:

Prezado Haroldo,

Essas camisas são promocionais da empresa e não a venda.
Atualmente estamos sem em estoque, mas te prometo que assim que fizermos mais, te dou uma, ok?
Você é publicitário?
Você mora em BH?

Abraço,
Maurício


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Enviei o segundo e-mail:

To: 'mauricio@caradecao.com.br'
Sent: Friday, April 28, 2006 3:06 PM
Subject: FW: cara de cão

Boa tarde Maurício.

Obrigado por responder minha mensagem e agradeço a gentileza sobre a camiseta. Não vai dar para passar aí, pois eu moro aqui em Belo Horizonte.

A primeira vez que vi as frases com o trocadilho 'God' por 'Dog' foi na internet, em alguns blogs. Ontem à noite em um Shopping daqui eu vi uma pessoa com a frase: "Oh my Dog !" e resolvi conversar com ela e explicar o meu interesse. O nome dela é Ana, e trabalha aqui em BH na pós-produção.

Hoje na hora do almoço fui até o endereço daqui, na Raja Gabablia, 319. Uma subida e tanto daqui onde eu trabalho (CEMIG, uns 3 km de lá).

Chegando lá apertei a campainha . Lá da mesa da recepcionista ela já conseguia me ver. Ela perguntou: "Quem é?'. Eu disse: "Sou eu". Ela apertou o botão que abre o portão.

Fui lá para saber se tinham recebido o meu e-mail sobre a camiseta...

Ela me perguntou: "Veio para o teste?"

Eu quase que respondi que "sim" Quem sabe? Mas como eu não sabia qual era o teste, não quis me passar por "árvore para cachorro". Você sabe!

Contei-lhe sobre o desejo de ter uma camisa com a frase "In Dog We Trust". Mas acho que ela não acreditou na minha história esdrúxula!

Ela me perguntava: "Você é do meio?" Será que meio que ela se referia? Será que eu tenho cara de cão?

Ela disse que o rapaz das camisetas não estava, era para passar depois, sempre com aquele olhar: "Esse cara tá fazendo uma pegadinha comigo!"

Estava de saída e resolvi dar meia volta e dizer a ela que eu estava lá realmente era para o teste.

Ela teve um ataque!

Eu gostaria de saber se ela está bem e se recuperou...


(Ah, não esqueça a minha camiseta!)



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O último e-mail- recebido:

Haroldo,

Já dobramos de rir do seu e-mail por aqui...
Se o teste fosse para comediante você já estaria empregado!!
Eu também estou em BH, exatamente na Raja e pode deixar que eu te aviso quando fizermos a camiseta, ok?

Abraço,
Maurício Foresti

20 abril, 2006

"Estou sem tempo para ler..." (como ele consegue?)

Crônica:

Inveja
L. F. Verissimo

Sou um invejoso, confesso. Invejo quem pode comer doce, quem consegue dormir em avião, quem fala bonito, quem tem neto, quem sabe programar o 'timer'. Invejo os que têm certeza, os que têm fé e os que têm cabelo.
Mas há um tipo que eu invejo acima de qualquer outro. Um que me desperta admiração e ódio - que são os componentes da inveja - numa escala quase insuportável. É o que diz, geralmente depois de um suspiro revoltante: 'Estou sem nada para ler...' Entende? Não é a queixa de uma privação passageira. Ele não se distraiu e deixou de se suprir de leituras, como se tivesse esquecido de comprar sabão no super. Está implícita na sua lamúria uma crítica à indústria editorial e à classe intelectual, que simplesmente não produziram nada que merecesse sua atenção. Elas são as responsáveis pelo seu tempo ocioso e a sua mesa de cabeceira vazia. Enquanto eu sofro da angústia oposta, a da falta de tempo e das pilhas de livros na mesa de cabeceira - e nas estantes e em qualquer superfície plana da casa. Minha queixa é outra: coisas demais para ler até a minha morte, marcada para 2076, se é que eu acertei o 'timer', sem falar no que ainda pretendo comprar. 'Que inveja' é o único comentário cabível diante da frase do insensível.
Muitas vezes a frase é apenas preâmbulo para um pedido de sugestão de leitura. Para: 'Tens lido algo que preste?' A pergunta pressupõe que você tem os mesmos gostos que ele e lhe dá a oportunidade de brincar de leitor casual também, sem stress. - Já leu o Da Vinci? - Já tentei. Mas daquele tamanho... - E o do Fernando Henrique? - Acho que vou esperar o filme.
Ele tem razão. Não há mesmo nada para ler.
Mas a inveja de quem não tem a angústia dos livros esperando leitura seria mais honesta, no meu caso, se a falta de tempo não fosse culpa minha. Na verdade, tenho inveja de mim mesmo quando lia por prazer e curiosidade e não perdia tanto tempo com jornais, revistas e televisão, que nos aproximam tanto do mundo que roubam nossa perspectiva, e portanto nos informam e deformam ao mesmo tempo. Enquanto as pilhas não param de aumentar.