10 novembro, 2005

Excluídos e miseráveis atacam os pobres

Milícias contra a violência

Deborah Berlinck

Correspondente PARIS

O indiano Lal Kshina, que trabalha há dez anos como garçom em Paris, estava jantando tranqüilamente com a mulher em casa, em Sevran, bairro pobre da periferia, quando começou a gritaria e o corre-corre no prédio. Da varanda, viu seu carro, um Fiat de seis anos, em chamas. Em minutos, seu único patrimônio desapareceu. O carro da sua vizinha, uma faxineira, teve o mesmo destino: o lixo.

— Ganho salário mínimo (1.100 euros por mês, o equivalente a R$ 2.854). O carro era tudo o que eu tinha. Não tenho dinheiro para comprar outro — lamenta Kshina, que tem três filhos, de 1, 5 e 8 anos de idade.

Kshina hoje integra uma das patrulhas de moradores que surgiram espontaneamente em conjuntos habitacionais na periferia de Paris. São espécies de milícias, equipadas até com gás lacrimogêneo. Desesperados com a possibilidade de perder o pouco que têm, moradores da Boétie — um conjunto de classe operária em Sevran, há 45 minutos de trem de Paris —decidiram assumir o comando da situação. O GLOBO os acompanhou na madrugada de ontem.

Revezamentos em rondas durante a madrugada

No estacionamento da Boétie, não há um BMW ou uma Mercedes. Só carros velhos. — Atacam quem já não tem condições. É isso o que nos exaspera. Não entendemos — queixa-se Denis A., 46 anos, mecânico de uma oficina de carros que há dias monta guarda ao lado de sua Peugeot 405, um modelo de dez anos. Os moradores passam as madrugadas se revezando em rondas pelas ruas, dispostos a dificultar a ação dos bandos de jovens que tomaram a França de assalto. Para eles, miséria e discriminação não justificam a violência contra pessoas que também têm pouco. Em 14 noites, jovens incendiaram mais de seis mil carros — a maioria de gente pobre — destruíram escolas e confrontaram a polícia, levando o governo do presidente Jacques Chirac a mergulhar numa crise sem precedentes. Após a decretação do estado de emergência no país, terça-feira, a revolta da periferia perdeu força. Na madrugada de ontem — a 14 noite de ataques — 617 carros foram incendiados (contra 1.173 na noite anterior) e 204 pessoas foram detidas. Nas primeiras horas da madrugada de hoje, a polícia divulgou que mais 227 carros haviam sido queimados e 90 pessoas tinham sido detidas durante a noite. Como fez durante a semana toda, o francês Manoel Y, 37 anos, filho de uma espanhola e um marroquino, equipou-se com um bom casaco de inverno e uma enorme lanterna que também serve de cassetete e partiu para a rua com os vizinhos. Motorista de ambulância em Paris e dono de um Citroën, ele diz que viveu a miséria na infância e nem por isso partiu para a violência: — Há 11 dias só durmo duas horas por noite. Posso compreender a revolta com as condições de vida. Mas tem que ser uma revolta inteligente. Se eu estivesse na miséria das ruas, não atacaria trabalhadores. Juntaria umas 50 pessoas para invadir um supermercado e anunciar: vamos comer. Isso seria um protesto mais inteligente. Há seis meses desempregado, o indiano Dil Bhabur uniu-se à patrulha. Está revoltado: — Ah, se fosse na Índia... Lá não tem essa história de carro queimado. O povo ataca, e ataca mesmo. Aqui na França todo mundo é medroso. Os moradores de Boétie não querem que seu grupo seja chamado de milícia. Dizem tratar-se de uma “organização civil”. Por isso mesmo o chefe do grupo, Jean-Jacques A., um aposentado de 60 anos, providenciou um casaco com a inscrição Organization . — Não somos milicianos. Somos gente comum que vive problemas do cotidiano. Isso aqui parecia Beirute — diz. A revolta da periferia pegou Didier Cannesson, 48 anos, de surpresa. Integrante da patrulha, ele foi obrigado a vender sua lavanderia em Paris, onde morava com a mulher, por causa de problemas cardíacos. Decidiu morar em Sevran imaginando que teria uma vida mais calma no subúrbio. — Quando chegamos aqui, não tinha barulho. Esse lugar tem árvores, centro comercial. Temos tudo aqui. E, de repente, esta surpresa. Há sete anos que o meu filho me avisa: “Pai, isso vai explodir” — conta.

Prefeitos se negam a adotar toque de recolher

O governo autorizou terça-feira estado de emergência em 38 regiões e cidades. Mas só cinco departamentos disseram que adotariam a partir de ontem à noite o toque de recolher: Seine-Maritime, Somme, Eure, Loiret e os Alpes Marítimos. Menores seriam proibidos de ir às ruas desacompanhados de adultos em cidades como Nice, Cannes e Grasse. Na noite de anteontem quatro cidades haviam adotado a medida: Orleans, Savigny-sur-Orge, Le Raincy e Amiens. Prefeitos da região de Île-de-France — que inclui Seine-Saint-Denis, onde tiveram início os distúrbios — negaram-se a adotar o toque de recolher, alegando que os atos de violência haviam diminuído e que esse tipo de medida poderia ser interpretado como uma provocação, tendo um efeito contrário ao desejado.

Fonte:

http://oglobo.globo.com/jornal/mundo/189106895.asp

Nenhum comentário: