10 novembro, 2005

Com tudo para assustar o público, 'Cinema, aspirinas e urubus' conquista crítica e festivais

09/11/2005 - 19h25m
Bianca Kleinpaul - Globo Online


RIO - Um filme todo com dois homens dentro de um caminhão no meio do semi-árido nordestino. Os personagens são vividos por atores completamente desconhecidos do grande público. O dono da idéia é um diretor estreante em longa-metragem. E é de Pernambuco, fora do principal eixo audiovisual Rio-São Paulo. Para completar, a obra ganhou o estranho título "Cinema, aspirinas e urubus"... Tinha tudo para ser um filme de difícil aceitação do público. Ou quase tudo. "Cinema aspirinas e urubus" - que estréia esta sexta-feira - conquistou a crítica e a platéia dos festivais por onde passou. O primeiro foi Cannes, em maio deste ano, quando o diretor Marcelo Gomes levou o prêmio Sistema Educacional Francês (mesmo não participando da mostra principal). Depois vieram Hamburgo, Festival do Rio (Melhor Filme Júri Oficial e Melhor Ator para João Miguel), San Sebastian e Mostra de São Paulo (Melhor Filme). Ao todo foram 64 convites para festivais, incluindo Bósnia, Cuba, Estocolmo, Roterdã, Mar del Plata e Los Angeles - para onde a equipe viajou esta quarta-feira. "Cinema, aspirinas e urubus" ainda estréia em 15 salas dos EUA em janeiro do ano que vem. Nem o diretor Marcelo Gomes, "desconhecido até da crítica" como ele mesmo diz, imaginava ir tão longe. - Me perguntei várias vezes porque o filme se comunica tão bem com o público... Sinto nos festivais que o mundo carece de humanidade, de verdade. O que mais ouço é que este é um filme humano. Muitos dizem querer sair por aí com os personagens no caminhão - conta ele. O caroneiro da história é Ranulpho, um jovem pernambucano que decide fugir da seca do sertão. Ele não entende como o alemão Johann fugiu do seu país para se entranhar no semi-árido brasileiro e vender um remédio "com a cura de todos os males" a nordestinos que nem têm o que comer e beber direito. E como a propaganda é a arma do negócio no auge da industrialização no Brasil dos anos 40, o "gringo" vai exibindo filmetes sobre as aspirinas e acaba levando um pouco de cinema ao povo dos lugarejos. O encontro ocasional de duas figuras em situações políticas e sociais tão adversas faz o espectador refletir sobre a condição humana. Gomes acredita que em um mundo tão cheio de intransigências, difícil de se aceitar a cultura e a religião do outro, Ranulpho e Johann ensinam como respeitar as diferenças. O público, pelo menos dos festivais, rende-se a essa lição de tolerância. - Teve um cara em Hamburgo que me disse nunca ter visto um filme de guerra tão bom - relata o diretor, cuja idéia do roteiro surgiu de uma conversa com seu tio-avô, Ranulpho Gomes, um paraibano que, nos anos 40, foi para o sudeste para escapar das contínuas secas. Bayer autorizou o uso do nome da Aspirina "Cinema, aspirinas e urubus" é um trabalho naturalista há muito não visto nas telas brasileiras. A direção de arte é honesta e a fotografia sem malabarismos, mostrando um sertão com as mesmas dureza e temperatura sentidas pelo personagem alemão. O céu tem um branco estourado propositalmente e joga na cara a aridez de um lugar quase sempre maquiado e colorido pelo cinema brasileiro. Tudo isso dá um tom documental à produção, em que os personagens são o eixo central. - Eles são cheios de verdade - deixa claro o diretor, que ressalta o trabalho de equipe. - É um filme pensado em todos os detalhes. Esse trabalho nem aparece tanto de propósito. É para ser naturalista. O título do longa também foi pensado desde o início pelo diretor, que conseguiu autorização do fabricante da Aspirina, a Bayer, para o uso do nome do remédio. - Eles só pediram para usar o R de marca registrada no título - conta ele consciente que o nome do filme promove curiosidade e assusta ao mesmo tempo. O que pode soar estranho à primeira audição é compreendido quando sobem os créditos. Mas não custa o diretor dar seu esclarecimento:




"Cinema para vender sonhos e aspirinas para curar as dores. Mas nada consegue resolver os problemas e os urubus continuam pairando sobre nós".

Fonte:
http://oglobo.globo.com/online/cultura/189089845.asp

Nenhum comentário: